sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Quando o dogmatismo se infiltra

Discutíamos a questão da água fluidificada em sala de aula, e em determinado ponto da conversa alguns alunos passaram a relatar como o assunto é tratado em Casas Espíritas por onde passaram.

Um deles disse que os vasilhames deveriam ser postos sobre uma mesa especialmente designada para esse fim, e deveriam estar destampados durante a prece coletiva, e imediatamente tampados assim que a mesma terminasse para que os fluidos permanecessem na água; outro relatou que os vasilhames deveriam permanecer tampados durante todo o processo, pois a ação da espiritualidade não é impedida por barreiras físicas; já um terceiro disse que as instruções eram para que o recipiente fosse tampado, mas que a tampa jamais deveria ser de metal, pois o metal influi de forma indesejável no processo de magnetização. Outros foram os relatos: vasilhames de uso coletivo, vasilhames individuais obrigatórios, impedimento no uso dos vasilhames de plástico, e por aí vai.

Como sou engenheiro de formação, e como para mim o aspecto científico da Doutrina — especialmente o método de experimentação (calcado na razão e nos fatos) de Kardec — são indispensáveis na análise de qualquer assunto ligado ao Espiritismo, mais uma vez percebi estar presenciando um fenômeno que infelizmente se torna comum em Casas Espíritas em todos os lugares: a dogmatização.

Nos casos relatados acima, quando inquiridos sobre o processo de experimentação utilizados pelas várias Casas Espíritas para chegar às conclusões relatadas, os alunos não conseguiam oferecer respostas, sendo que alguns afirmavam a velha (e perigosa) diatribe: “sempre foi feito assim”. E a segurança propiciada pelos anos, junto com a sensação de que de certa forma o “método” adotado pela Casa faz sentido, adicionado ainda o temor de questionar um procedimento adotado, juntos geram aquilo que formalmente foi extirpado da Doutrina já em sua codificação por Kardec: a ação sem base na razão.

O exemplo da água fluidificada é apenas um de literalmente centenas que muitas vezes encontramos em Centros Espíritas. Separação de homens e mulheres no salão de preleções (até mesmo com o uso de cortinas); banalização do passe (passe na entrada, passe na saída, passe para entrar na sala de passes, e por aí vai); ritualização dos procedimentos doutrinários e mediúnicos; “padroeirização” de colaboradores desencarnados da Casa e de nomes proeminentes do Espiritismo (“valha-me meu querido senhor Austrilágio, fundador dessa casa” como prece pessoal); receituário de banhos com ervas e sal grosso (esse “importado” diretamente da Umbanda) e vários outros. Nada disso resistiria ao crivo do próprio Kardec — que teria sido o primeiro a adotar tais práticas se fizessem sentido à luz da razão — ou mesmo a um estudo com base na Ciência a que temos acesso nos dias de hoje.

E o problema ainda se agrava mais quando sutilmente passamos a nos apegar a tais procedimentos em detrimento da essência da Doutrina, de seus aspectos científicos, de seus fundamentos filosóficos, e da renovação moral que exige. Tornamo-nos caricaturas ambulantes, e abalizamos os questionamentos dos céticos quanto à suposta falta de seriedade da Doutrina Espírita. Uma pena.

O que a Doutrina nos conclama a fazer é a continuar estudando, e a questionar sempre — com base nos fatos e no avanço científico — as práticas e possibilidades que se nos apresentam. Nesse sentido, iniciativas de estudo científico, como as conduzidas pela A.M.E. (Associação Médica Espírita) e pela UniEspírito, por exemplo, são muito bem-vindas.

Só assim, através da condução da Doutrina dentro dos parâmetros seguros delineados por Kardec, conseguiremos evitar o dogmatismo, que tanto mal causa onde se estabelece.

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