O indivíduo conhece a Doutrina Espírita e percebe seu valor para sua vida e para seu porvir. Ele se entusiasma e estuda o quanto pode — com afinco e perseverança — o vasto contingente de informações à sua disposição sobre as questões filosóficas, científicas e religiosas levantadas pelo Espiritismo. Ele se apóia em Kardec e na necessidade da transformação moral; ele labuta nos trabalhos de caridade desenvolvidos pela Casa onde se encontra; ele, em suma, se dedica à causa de coração, mente e alma.
Anos (ou, em muitos casos, décadas) se passam. E tudo segue o curso determinado pelo Pai Maior, até o dia em que a vida lhe determina uma necessidade de mudança. Por quaisquer que sejam as contingências, esse indivíduo se vê obrigado a mudar de cidade, ou mesmo de estado.
Chegando à sua nova morada, procura se integrar no trabalho e na comunidade. Busca também, claro, uma nova Casa Espírita onde possa dar sequência aos seus labores em prol da Doutrina e de si mesmo. Ás vezes essa busca se estende por algum tempo, pois o indivíduo em questão não sente que o trabalho nessa ou naquela casa é realizado de acordo com o que aprendeu em sua alma mater do Espiritismo, lá na cidade natal, e ele continua a busca. Até que em determinado momento encontra a Casa almejada.
Dá-se então, um processo de ajuste mútuo: a Casa exige — de forma correta e absolutamente responsável — que o indivíduo passe por um processo de reciclagem, onde aprenda os procedimentos da instituição e sua forma de trabalhar. O indivíduo por outro lado, se aclimata e se integra com os colaboradores. Durante esse período mais ou menos longo, ambos — o colaborador e sua nova Casa — se assimilam, se entendem, se questionam e se aceitam, e no decurso do prazo determinado pela Casa, em havendo bom desempenho do novo colaborador em se harmonizar com os trabalhos e com a condução dos mesmos, este passa a fazer parte dos quadros da Casa Espírita que o acolheu, com todos os direitos e deveres daqueles que ali chegaram e demonstraram a mesma perseverança e responsabilidade para com a Casa e para com a Doutrina Espírita.
Infelizmente a situação descrita acima em muitos casos simplesmente não ocorre. Por mais que durante o processo de “aclimatação” o colaborador demonstre conhecimento, boa-vontade, empenho e tudo o mais que a Casa exige — novamente: é correto e responsável que a Casa exija — ele ainda assim será visto como um elemento de preocupação. E em alguns casos, assim permanecerá por um longo período, se é que esse período vai ser finito. Ocorre que em função de ter uma experiência pregressa dentro da Doutrina, seu conhecimento e seus pontos de vista, ainda que muito sutilmente, serão sempre questionados por aqueles que colaboram com a Casa já há muito tempo. Nada declarado e nada que impeça o colaborador de — através do exercício da paciência e da humildade — continuar sua seara de renovação interior e de exercício da caridade Cristã. Ainda assim, muitas são as situações em que um sutil véu separa o colaborador chegado de fora daqueles que encontraram o Espiritismo através da Casa. Algumas instituições mais antigas apresentam esse fenômeno com maior frequência, até porque já calcificaram suas condutas e seus procedimentos com relação à Doutrina, mas não são as únicas. Muitas instituições “jovens” apresentam comportamento semelhante. Essa diferenciação se faz sentir em muitas situações quando o colaborador em questão exprime sua opinião, se dispõe a desempenhar alguma tarefa (excluídas as tarefas de cunho voluntário, claro) ou dá uma ideia nova. As reservas se mostram rapidamente, e nem sempre existe coerência sob o ponto de vista doutrinário. Ocorre apenas que vem de alguém “de fora”. Em algumas situações mais exacerbadas, o colaborador é levado a sentir que cometeu um erro por ter ingressado na Doutrina Espírita por uma instituição diferente daquela que no momento o recebe.
Não queremos aqui afirmar que a Casa Espírita deva afrouxar o zelo que corretamente nutre pela boa condução de seus trabalhos, nem reduzir as exigências quanto ao estrito cumprimento das normas Codificadas por Kardec. Em outra oportunidade já mencionei que os perigos da dogmatização sempre rondam as casas que assim procedem. O que penso ser importante observar é que mesmo em se seguindo à risca as diretrizes da Doutrina Espírita, mesmo pautando exclusivamente por Kardec, mesmo observando estritamente a pureza doutrinária, ainda assim existe espaço dentro da atuação dos colaboradores Espíritas para a diversidade de opiniões e para o surgimento de ideias que sejam úteis para qualquer Casa.
Aliás, desde que dentro dos preceitos doutrinários codificados or Kardec, essa diversidade de opiniões e de ideias deveria ser incentivada e sempre muito bem-vinda. A evolução, afinal, se dá com o contato com a diversidade. Se nós, como Espíritas, fôssemos avessos a novas ideias, toda a obra de André Luiz, por exemplo, teria sido rejeitada. Aliás, é bom lembrar que muita oposição essas obras tiveram em seu nascedouro. E hoje formam parte sólida e importante do edifício do conhecimento Espírita que tanto nos beneficia, e que tanto respeitamos.
Por outro lado, conhecemos bem o caminho seguido por instituições que se calcificam nas ideias “tradicionais” e no pensamento centralizado, onde as divergências são vistas como sendo nocivas e vindo de mentes e grupos menos capacitados. As instituições que assim procedem trocaram ao longo da História a essência pela liturgia, e o Espiritismo surgiu como Cristianismo Redivivo para que a luz do Mestre Jesus brilhasse novamente no seio da Humanidade.
Vigiemos e oremos para que nossa conduta seja sempre inclusiva, e para que possamos valorizar o conhecimento e a boa vontade, venham de onde vierem, desde que calcados no amor de Jesus e na segurança de Kardec.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
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