sábado, 15 de agosto de 2009

Receber bem para receber sempre

Recentemente um casal de amigos me contou uma pequena passagem que guarda triste semelhança com várias outras que já ouvi ou — mais contundentemente — que já presenciei.

A família — pai, mãe e a filhinha de quatro anos — em busca de um Centro Espírita passa pela porta de um deles, desconhecido até então, e decide entrar para “dar uma olhadinha”. São logo avistados por um indivíduo na entrada, a quem dirigem as perguntas habituais: “quando são os horários de funcionamento?”, “existe grupo de evangelização infantil”, ao que são prontamente respondidos. Junto com a resposta, porém, vem o aviso: “mas não permitimos a entrada de pessoas de bermuda.”

O pai, de calça social (era um domingo e estavam passeando pela pequena cidade), olha para a mãe, também de calça social, e volta-se sem entender nada para o colaborador da casa. E é esclarecido do “erro” em questão: “a menina não pode entrar na casa vestida assim.” A filhinha de quatro anos trajava uma bermudinha, e isso violava o código de vestimenta da Casa em questão.

Situações semelhantes — de constrangimento daqueles que buscam a Casa Espírita pela primeira vez — ocorrem de formas múltiplas, e o resultado, infelizmente, é quase sempre o mesmo: o afastamento prematuro daquele que veio até a Casa em busca de auxílio.

Sabemos, claro, que toda casa tem suas regras, e que a regra de vestimenta é absolutamente importante para reforçar o código de conduta que se espera dos colaboradores e frequentadores do Centro Espírita, mas a questão aqui é outra: a de se imputar a regra antes de se oferecer o auxílio. E a primeira impressão nesse caso (e em vários outros m que recebemos mal o irmão que nos busca pela primeira vez) é péssima, e em última instância é um exemplo tácito de falta e caridade. Nesse sentido, inúmeros são os “comitês de recepção” de Centros Espíritas que erram por não entender que o momento inicial de contato com a Casa é de suma importância para quem a procura. Impor regras logo na entrada, receber de mau-humor, dar informações errôneas ou incompletas e vários outros exemplos são atitudes certamente descompassadas dos objetivos da Casa (de qualquer Casa) Espírita.

Em contraste, tenho exemplos pessoais de recepções em templos de outras religiões. Em situações em que fui convidado a assistir o sermão em Igrejas Batistas, por exemplo, mais parecia que eu era o convidado de honra do local, tendo sido apresentado às atividades e às instalações da Igreja e tendo sido sempre introduzido às pessoas que me recebiam com largos e sinceros sorrisos. Se sabiam que eu sou espírita ou não, não sei (os amigos que me convidaram certamente sabiam), mas o fato é que me senti muito bem recebido, muito bem-vindo àqueles templos. E, puxa, como eu gostaria que todas as Casas Espíritas recebessem os “novatos” dessa forma amabilíssima.

E como fazer para que a situação se modifique para melhor em nossa Casa Espírita?

Bem, em primeiro lugar é necessário fazer uma avaliação da situação. Temos alguém para receber as pessoas durante as sessões públicas? Se sim, os responsáveis pela recepção estão a par das atividades da casa? E estão instruídos para receber os que chegam pela primeira vez com a alegria e a caridade de quem recebe um irmão do coração que pode estar precisando muito de ajuda?

Caso as respostas para essas e para outras perguntas da avaliação inicial não sejam satisfatórias, o caminho é simples: formalização e treinamento. A Casa já deve oferecer vários cursos sobre a Doutrina e as atividades da mesma, certo? Pois então, a conduta durante a recepção deve ser conteúdo formalizado e abordado em treinamento. E, por favor, que nesse treinamento seja reforçado que a caridade e a cordialidade na recepção dos iniciantes deve preceder a exigência de regras de conduta. Não que as regras não devam ser passadas em pouco tempo de frequência, mas que nós possamos abrir pequenas exceções em nome de receber bem. Em nossa Casa, onde a padronização e o treinamento são palavras de ordem já há décadas, e onde as regras são seguidas sempre, mas com bom-senso, a questão da vestimenta é lembrada com bastante frequência, mas em público e para todos os frequentadores (e não de forma direta para esse ou para aquele indivíduo). Apenas em casos de abusos mais contundentes — e só muito raramente vemos esse tipo de abuso — é que uma observação particular é feita. Dessa forma o novato se sente realmente bem-vindo, e quando for informado acerca das regras, já se sentirá suficientemente à vontade com a Casa para não se sentir “enjeitado” pela mesma. Como no caso do exemplo inicial, em que faltou bom-senso ao se exigir uma regra de vestimenta de uma menina de quatro anos trajada para um passeio ao ar livre num dia de domingo.

Receber bem o iniciante é importante para que esse encontre na Casa Espírita o auxílio que busca, desenvolva forças para se renovar nos caminhos do Cristo, e quiçá venha a se tornar um colaborador da do Centro e da Doutrina Espírita.

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